Mais de 12 mil crianças e jovens já participaram no rastreio pioneiro à diabetes tipo 1 implementado pela APDP e desenvolvido em conjunto com várias unidades de saúde, entre as quais Matosinhos, Beja e Barcelos-Esposende. No total, foram 40 as crianças e jovens identificados com a doença em fase pré-sintomática.
A equipa da APDP apresentará os resultados deste rastreio no congresso internacional da ISPAD (International Society for Pediatric and Adolescent Diabetes), o maior evento científico dedicado à diabetes pediátrica, com três estudos aceites para apresentação. O congresso decorre de 4 a 7 de novembro de 2026 no Rio de Janeiro.
A diabetes tipo 1 costuma surgir de forma súbita, muitas vezes com o diagnóstico a acontecer já numa situação de urgência hospitalar. Mas a doença começa, na realidade, meses ou até anos antes de se manifestar clinicamente: o sistema imunitário começa a atacar as células do pâncreas que produzem insulina, gerando pequenos sinais no sangue – os chamados autoanticorpos.
É precisamente esses sinais que o programa europeu EDENT1FI procura detetar precocemente. Desde setembro de 2024, uma equipa da APDP tem percorrido escolas, centros de saúde, hospitais e eventos comunitários por todo o país, oferecendo um rastreio simples, com uma pequena amostra de sangue, recolhida através de uma picada no dedo.
Até abril de 2026, 12.312 crianças e jovens entre os 3 e os 17 anos participaram no rastreio. Os resultados mostram que 40 delas, cerca de 3 em cada 1.000, tinham já dois ou mais autoanticorpos positivos, um sinal claro de que a diabetes tipo 1 está em fase inicial.
Destas 40, 38 entraram de imediato num programa que inclui acompanhamento clínico, educativo e psicológico. Até ao momento, nenhuma progrediu para a fase sintomática da doença.
As escolas como aliadas no rastreios
Quase metade dos rastreios (47%) foram feitos em contexto escolar, em 78 escolas públicas e privadas de várias zonas do país. Segundo a equipa do Departamento de Crianças e Jovens da APDP, o ambiente escolar ajuda a criar condições mais favoráveis à participação. Na escola, as crianças estão rodeadas dos colegas e dos amigos habituais, num ambiente conhecido e descontraído, o que facilita a adesão das famílias ao rastreio.
Uma picada no dedo é suficiente
Outro estudo que será apresentado no ISPAD confirma que o método de rastreio é fiável. Ao comparar amostras de sangue recolhidas por picada no dedo com amostras de sangue venoso (a colheita tradicional feita numa veia), os investigadores encontraram uma concordância muito elevada, igual ou superior a 89%, para todos os autoanticorpos estudados. Isto significa que é possível confirmar a maioria dos casos com um método simples e pouco invasivo, reservando a colheita venosa apenas para confirmar os resultados positivos.
O que vem a seguir
Os rastreios em Portugal integram a iniciativa europeia EDENT1FI, que pretende rastrear 220 mil crianças em toda a Europa. A meta nacional é de 15 mil participantes.
Para a equipa da APDP, estes resultados confirmam que o rastreio populacional da diabetes tipo 1 é viável e abre caminho para que no futuro, mais famílias possam beneficiar da deteção precoce, acompanhamento atempado e, eventualmente, de novas terapêuticas capazes de atrasar o aparecimento da doença.
Lisboa, 27 de julho de 2026