Viver a sexualidade

A disfunção sexual pode acontecer na diabetes. Saiba quais os conselhos práticos dos profissionais de saúde para uma vivência saudável da sexualidade.

 

Texto: Ana Margarida Marques

 

Sabe-se que a diabetes se caracteriza pelo aparecimento gradual de alterações vasculares e neurológicas, responsáveis pelas complicações crónicas da própria doença. A diabetes atinge órgãos-alvo, como o coração e a retina, mas os órgãos genitais também sofrem alterações devido a esta doença. Daí a necessidade de os profissionais de saúde especializados no campo da sexualidade e da saúde esclarecerem a pessoa com diabetes.

Em primeiro lugar, é importante definir que quando há excitação sexual no homem há ereção do pénis; no caso da mulher, há lubrificação da vagina. Estes sinais são enviados pelo cérebro através de nervos para os vasos sanguíneos da região.

A disfunção sexual pode acontecer na diabetes e manifesta-se sob a forma de ejaculação retrógrada ou impotência sexual no sexo masculino, e perda do desejo, incapacidade de orgasmo e alterações de lubrificação no sexo feminino.

Estas alterações podem ter origem nas lesões dos nervos, mas também nos vasos sanguíneos. Muitas vezes as disfunções sexuais na pessoa com diabetes não têm origem em lesões orgânicas propriamente ditas, podendo ter uma origem psicológica. Existem hoje formas de tratar muitas situações com resultados já satisfatórios. Procurar ajuda de um técnico deverá ser a primeira medida a tomar por parte da pessoa com diabetes.

 

Disfunção sexual na mulher

Lisa Ferreira Vicente, ginecologista na APDP, refere que diversos estudos focam o impacto das alterações vasculares e neurológicas decorrentes da diabetes nas várias fases da resposta sexual feminina. Num artigo de revisão publicado em 2007 na Revista Portuguesa de Diabetes, a ginecologista aponta que os estudos mais recentes sugerem que há uma maior prevalência de disfunção sexual na mulher com diabetes, em particular nas fases de excitação – que se traduz por alterações na lubrificação vaginal – e do desejo sexual.

 

Lubrificação vaginal

A diminuição da lubrificação vaginal pode ser uma das principais queixas. Lisa Ferreira Vicente explica que esta situação é decorrente da própria doença, mas que pode ser melhorada com a utilização de lubrificantes vaginais e com medicação. “Esta terapêutica, apesar da sua simplicidade, é frequentemente negligenciada pelos técnicos de saúde”, refere a autora no seu artigo científico, referindo também: “É importante falar da naturalidade da sua utilização, visto que são ainda muitas as mulheres que oferecem uma grande resistência mental à manipulação de lubrificantes.”

 

Excitação sexual

Segundo Lisa Ferreira Vicente, “no estudo com o maior número de mulheres com diabetes tipo 1 (120 mulheres) publicado até à data, [a autora] Enzlin encontrou um aumento estatisticamente significativo da prevalência de diminuição da lubrificação vaginal. 14% das mulheres na amostra (versus 6% no grupo controlo) referiam diminuição da lubrificação vaginal. Este facto era mais significativo no subgrupo das mulheres com complicações tardias (18,6%) comparativamente às mulheres sem complicações (8,7%).”

Também as alterações da fase da excitação sexual têm sido objeto de estudo nas mulheres com diabetes. Contrariamente ao que acontece no caso dos homens, não foi ainda possível comprovar a relação da prevalência dos anos de diabetes, controlo metabólico, número e gravidade das complicações tardias.

 

Infeções

Um problema frequente na mulher com diabetes são as infeções como as vulvovaginites e fungos, que surgem sobretudo quando não existe um bom controlo glicémico. Este facto “nem sempre é referido como causa primária dos problemas sexuais”, refere Lisa Ferreira Vicente no seu estudo, mas “é a causa recorrente de mal-estar, podendo interferir negativamente na autoimagem corporal.”

Os desconfortos deste tipo devem ser comunicados ao médico. O tratamento de infeções deverá ser realizado apenas nos casos em que a mulher tem sintomas, uma vez que as terapêuticas repetidas ou incompletas são responsáveis pela manifestação de outras infeções com espécies diferentes ou resistentes à terapêutica.

 

Receio de hipoglicemia durante as relações sexuais

Ter uma hipoglicemia ou baixa de açúcar no sangue durante o ato sexual é uma preocupação comum da mulher. “Este problema é mais frequente entre as mulheres com um bom controlo glicémico, sendo uma das dúvidas colocadas pelas jovens ou em mulheres com diagnóstico recente de diabetes”, aponta Lisa Ferreira Vicente no artigo. “É de facto uma possibilidade real porque a atividade sexual e até a ansiedade de um encontro amoroso podem consumir muitas calorias.”

A estratégia a aplicar será ter o cuidado de reforçar a ingestão de hidratos de carbono antes ou depois das relações sexuais ou diminuir a dose de insulina a administrar, indicações baseadas em truques simples para colocar no dia a dia e não diretivas médicas propriamente ditas.

 

Aceitação da doença crónica

Lisa Ferreira Vicente explica a importância de não abordar a sexualidade da mulher na perspetiva única de que esta tem uma doença crónica, nomeadamente a diabetes. “Em primeiro lugar, a sexualidade das mulheres com diabetes tem a ver com a sua própria história, a forma como se veem, o seu próprio corpo, as experiências que tiveram“, refere a ginecologista. “A sexualidade faz parte da vida de todos”, quer exista ou não na vida de cada indivíduo, frisa Lisa Vicente Ferreira, explicando a importância do diálogo aberto sobre as questões sexuais. “É importante procurar ajuda”, refere, nomeadamente junto de profissionais de saúde com formação específica na área da sexualidade e das disfunções sexuais.

No seu artigo publicado na Revista Portuguesa de Diabetes, Lisa Vicente Ferreira dedica particular atenção a esta questão: “Algumas mulheres revêm-se como “doentes” e não como mulheres com diabetes; sentindo por isso que a diabetes limita a sua socialização e inevitavelmente as suas relações de intimidade. Tal como Enzlin refere nos seus estudos, são as mulheres menos adaptadas à vivência da diabetes como doença crónica que referem mais frequentemente dificuldades no relacionamento sexual.

No processo de adaptação à doença crónica, o trabalho realizado deve contemplar a forma como são vividas as representações da doença na vida diária ou nas expectativas de vida; assim como as implicações, representações e expectativas na vivência da intimidade e da sexualidade.”

Por outro lado, importa referir que a grande maioria dos diagnósticos de diabetes tipo 1 é realizado na adolescência e na mulher jovem. A descoberta da diabetes nestas idades influencia grandemente a autoimagem e a vivência da sexualidade das jovens. O princípio a adotar deverá ser, uma vez mais, procurar ajuda técnica para esclarecer dúvidas e superar eventuais dificuldades.

 

Efeitos secundários da medicação

São diversos os antidepressivos que interferem com o desejo sexual, dificultando a distinção entre os efeitos da depressão e a sua terapêutica.

Estudos demonstram que alguma medicação como os estroprogestativos de baixa-dosagem podem em certas situações diminuir a lubrificação vaginal e/ou o desejo sexual.

Na mulher não está comprovado que os antihipertensores, classe de fármacos utilizados no tratamento da hipertensão, possam interferir na resposta sexual.

 

Fatores psicológicos

Nos últimos anos têm sido diversos os estudos na área da investigação a focar os problemas emocionais nas pessoas com diabetes, já que afetam a vivência diária do doente crónico. Contudo, os dados sobre o impacto da diabetes na sexualidade feminina são ainda parcos. Não está comprovada, por exemplo, a correlação entre a prevalência de disfunção sexual e os anos de diabetes, o mau controlo glicémico e a presença de complicações tardias. Por outro lado, refere Lisa Ferreira Vicente, há evidências estatísticas no que concerne aos fatores psicológicos, estando comprovada uma maior prevalência de depressão e má aceitação da doença crónica nas mulheres que referem disfunção sexual.

Diversos autores consideram que os estudos realizados nas mais diferentes situações de doença crónica têm evidenciado um fator dominante, nomeadamente que o processo psicológico de adaptação à doença crónica tem influência no relacionamento interpessoal das pessoas em geral e no relacionamento afetivo e sexual em particular.

“Os dados mostram que a depressão tem maior prevalência entre os indivíduos com diabetes, comparativamente à população em geral, afetando cerca de 15 a 20% dos doentes; se bem que a taxa não seja superior às que têm sido demonstradas noutras doenças crónicas”, refere ainda o estudo de Lisa Ferreira Vicente, que pretende focar as necessidades sentidas pelas mulheres com alterações provocadas na sexualidade pela diabetes.

 

Disfunção sexual masculina

Por seu turno, Carlos Monteiro, urologista da APDP, explica quais as principais queixas da vivência da sexualidade no sexo masculino.

Carlos Monteiro explica que, nos homens com diabetes, a queixa sexual mais frequente é a disfunção erétil. A disfunção erétil pode definir-se como a incapacidade de obter ou manter ereção com rigidez funcional de forma consistente num determinado período de tempo, associada ou não à perda de líbido, refere o médico Carlos Monteiro, explicando: “No entanto, e apesar de menos frequentes, estes doentes poderão apresentar também queixas relacionadas com o orgasmo e com a ejaculação, não sendo raros os casos de ejaculação retardada (dificuldade em obter o orgasmo) ou de anorgasmia (ausência de orgasmo), bem como de ejaculação retrógrada (emissão de sémen para a bexiga) ou anejaculação (ausência de emissão do sémen).”

 

Possíveis causas

As causas das disfunções sexuais são múltiplas, associadas normalmente aos efeitos da diabetes no organismo, mas também aos efeitos de alguns dos fármacos utilizados nos tratamentos da doença.

“Se nos lembrarmos que os processos sexuais masculinos (ereção, orgasmo e ejaculação) são fenómenos essencialmente neurovasculares, ou seja, dependentes de nervos e vasos sanguíneos, e que a diabetes é uma patologia que afeta globalmente a função dos vasos sanguíneos microscópicos, dos nervos e dos grandes vasos sanguíneos, facilmente entendemos o efeito da doença na função sexual masculina.”

O urologista aponta também o contributo, muitas vezes significativo, dos fatores psicológicos e das alterações hormonais que se associam à diabetes para a génese destes problemas sexuais.

 

Sinais de alerta

Segundo o urologista, as manifestações clínicas (sintomas e sinais) das disfunções sexuais no homem são claras e facilmente percetíveis pelo próprio homem: perda de qualidade da rigidez na ereção, menor frequência de ereções noturnas e matinais, dificuldade em obter o orgasmo e ausência de sémen.

“Contudo, o objetivo fundamental é perceber que a diabetes pode condicionar estas alterações, particularmente se mal controlada, de modo a prevenir o aparecimento destas queixas. Neste contexto, é muito importante transferir o foco de atenção da sintomatologia, que por vezes indicia um estado relativamente avançado do processo, para os fatores de risco, indicadores de um efeito futuro caso não sejam alterados.”

São fatores de risco as glicemias mal controladas, o tabagismo, o sedentarismo, a obesidade, o aumento do perímetro abdominal, a hipercolestrolemia (presença de quantidades de colesterol acima do normal no sangue), a hipertensão arterial e algumas classes de fármacos, que interferem com a ereção (como alguns antihipertensores), com o orgasmo (como os antidepressivos) e com a líbido.

Existem intervenções terapêuticas para todas estas situações, mas o urologista da APDP frisa: “todas elas podem e devem ser prevenidas através do controlo dos fatores de risco, uma vez que a maior parte dos casos são consequentes a deterioração neurológica tendencialmente irreversível.”

 

Como prevenir

O controlo da glicemia e o exercício físico, bem como a suspensão dos hábitos tabágicos e alcoólicos se existirem, ocupam lugar de destaque em qualquer processo terapêutico destes doentes, explica Carlos Monteiro.

“Sem estas alterações comportamentais é quase impossível obter um resultado favorável em termos de tratamento. Para todas elas o primeiro tratamento consiste no controlo da própria diabetes. Neste contexto, assumem particular relevância a higiene alimentar, o exercício físico e a consequente redução da percentagem de massa gorda.”

 

Orgasmo e ejaculação

“Nos casos de ausência de orgasmo e ausência de emissão de sémen de causa neurológica, pouco mais há a fazer do que a implementação destas medidas. O prognóstico é um pouco mais favorável quando estas entidades são consequentes à ação farmacológica, uma vez que a suspensão dos medicamentos, quando possível, reverte o efeito, como acontece com os antidepressivos e a ejaculação retardada ou a ausência de orgasmo, ou com a ejaculação retrógrada e a medicação que melhora o fluxo urinário.”

 

Diminuição da líbido

Segundo o urologista da APDP, quando existe diminuição da líbido, normalmente associada a disfunção eréctil e a outras manifestações de hipogonadismo (função testicular deficiente), e diminuição da testosterona comprovada laboratorialmente, pode ser equacionada a terapêutica de substituição hormonal se o doente não apresentar contraindicações para tal.

 

Medicação prescrita

Para o tratamento da disfunção eréctil existe um leque de opções mais amplo. Para além das medidas gerais e do controle dos fatores de risco, dispomos de terapêuticas farmacológicas, de dispositivos mecânicos e de cirurgias. Dentro do grupo de medicamentos encontramos três moléculas de ação semelhante, sildenafil, vardenafil e tadalafil, que podem ser administradas sobre a forma de comprimido quando necessário.

 

Casos específicos

O urologista Carlos Monteiro explica que estes fármacos apresentam um elevado perfil de segurança e, ao contrário da opinião generalizada, não “fazem mal ao coração”. No entanto, existem algumas situações que contraindicam estes medicamentos, situação em que é prescrita outra molécula vasodilatadora, o alprostadil, administrável através de um aplicador uretral ou de uma injeção peniana que o próprio aprende a executar.

Quando não é possível utilizar fármacos, ou nos casos de disfunção eréctil por insuficiência das veias em manter o sangue no pénis, recorre-se às bombas de vácuo, dipositivos que favorecem o preenchimento dos corpos cavernosos com sangue, com colocação subsequente de um anel constritor na base do pénis de modo a reduzir a fuga sanguínea e consequente perda de rigidez.

Nos casos de disfunção eréctil resistente aos tratamentos anteriores e irreversível, só a colocação cirúrgica de uma prótese maleável ou insuflável dentro dos corpos cavernosos permite voltar a ter rigidez suficiente para o desempenho sexual com penetração.

 

Intervenção psicológica

O urologista Carlos Monteiro refere também a importância da intervenção psicológica no que diz respeito às disfunções sexuais. “Se os fatores psicológicos não são causa inicial, são com certeza fatores de agravamento e de perpetuação das queixas”, refere o médico.

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