Prevenir a depressão

Saiba mais sobre a relação entre a depressão e a diabetes.

 

Texto: Carlos Góis (psiquiatra) 

In Revista Diabetes Viver em Equilíbrio, Ed. 72

 

O que é a depressão?

A depressão é uma doença que afeta cerca de 800 mil portugueses. Apresenta dois sintomas fundamentais: o humor depressivo (tristeza profunda) e a falta de prazer e interesse naquilo que habitualmente dava alegria e satisfação.

Há outros sintomas secundários como a perda de amor próprio, os sentimentos de culpa excessiva, as dificuldades de concentração e memória, a indecisão marcada, as ideias de querer fazer mal a si próprio, a tendência para o isolamento, a sensação de lentificação ou inquietação, e ainda sintomas físicos como a diminuição ou aumento do apetite e do peso, as perturbações do sono, a fadiga ou falta de energia.

Estas alterações têm de durar pelo menos duas semanas e ter uma repercussão significativa na vida da pessoa. Isto significa que não basta andar triste. Andar triste pode ser normal e ser controlável. Estar deprimido é um estado que produz sofrimento no dia a dia da pessoa, e mesmo que queira mudar este estado, não o consegue. É uma doença.

A depressão está na maior parte das vezes associada a acontecimentos de vida, como lutos, conflitos com pessoas importantes, más notícias, mudanças e adaptações difíceis.

A frequência da depressão em pessoas com diabetes é quase o dobro daquela que acontece nas que não tem diabetes. Provavelmente há fatores e acontecimentos semelhantes aos que já referimos acima, mas há outro lado que tem a ver com a diabetes e o seu tratamento. O “peso” da diabetes na vida das pessoas contribui com uma parte para este aumento. Este “peso” é emocional, como as zangas, medos e tristezas ao pensar na vida com diabetes e suas complicações, ou relacionado com os outros, como os técnicos de saúde que dão orientações nem sempre fáceis de cumprir, os amigos e familiares que podem dificultar os autocuidados, ou ainda a própria necessidade de manter os horários, a dieta, os medicamentos ou o esquema da insulina e a vigilância das glicemias.

 

Qual a influência da depressão na diabetes?

Quando a depressão surge numa pessoa com diabetes, os próprios sintomas dela podem mimetizar os sintomas da diabetes, ou seja, podem surgir mais queixas de fadiga, dificuldades de concentração, alterações do apetite, alterações do sono, sensação de agitação ou lentificação. Por outro lado, a depressão pode amplificar os sintomas da diabetes, como a fadiga, as alterações da visão, as queixas urinárias, as alterações da sensibilidade no corpo, as tonturas, a sensação de fome ou de sede excessivas, a sonolência ou as dores.

Estas queixas podem levar à confusão da pessoa com diabetes, porque pode pensar erradamente que está pior da diabetes.

Como a depressão também atinge a memória e concentração, é natural que haja mais faltas às consultas, mais dificuldade em recordar se os tratamentos foram feitos e quais as doses. Tudo isto está associado à desorganização que a depressão provoca e não a uma falha voluntária de adesão aos autocuidados. No entanto, pode parecer que é esta a hipótese quando o controlo da glicemia se deteriora.

Por outro lado, a depressão favorece o aumento de ingestão de alimentos com maior valor calórico (sobretudo à noite), a falta de motivação para fazer exercício físico e o aumento do consumo de tabaco.

Também, a descompensação da diabetes ou os sintomas físicos pouco claros descritos acima levam por vezes a maior ida a consultas, nomeadamente às de recurso ou a urgências.

 

Sinais de alarme da depressão em pessoas com diabetes

Os sinais de alarme para uma pessoa com diabetes pensar que pode ter uma depressão são de várias origens.

Uma, mental, que corresponde ao humor deprimido, à falta de prazer e de vontade para fazer as coisas do dia a dia ou de se divertir, à tendência ao isolamento, à falta de gosto por si próprio e sentir-se um peso para os outros, à indecisão, à desconcentração e esquecimentos. Por vezes, há que estar atento ao que os outros dizem, pois são eles que reparam mais nessas mudanças e alertam. Estas alterações têm de verificar-se por um período de pelo menos duas semanas.

Outra origem é mais física, e representa as queixas de sintomas físicos pouco claros, como a fadiga, dores difusas, alterações do sono ou apetite, que não existiam anteriormente, ou com tanta intensidade, e não relacionados aparentemente com o agravamento da diabetes.

A depressão pode estar presente também quando é mais difícil cumprir com o tratamento da diabetes sem uma razão evidente, por exemplo, quando há esquecimentos e confusões sobre modos de funcionamento que anteriormente eram fáceis de fazer.

 

Tratamento da depressão em pessoas com diabetes

Se surgirem sinais de alarme detetados pelo próprio ou pelos outros, devem ser transmitidos aos técnicos de saúde, para tomarem medidas.

O tratamento da depressão em diabetes é semelhante aos das pessoas sem diabetes e tem resultados muito semelhantes. Consegue-se voltar à normalidade na maioria das depressões, sobretudo se forem tratadas no seu início. Esta melhoria tem consequências positivas também na própria diabetes, tanto no peso subjetivo relacionado com os autocuidados, como no controlo da glicemia.

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