Motivação para a mudança

Adote estratégias no dia a dia e mude comportamentos de forma a assumir o controlo da diabetes.

 

Texto: Carlos Góis (Psiquiatra)

In revista “Diabetes – Viver em Equilíbrio”, Ed. 76

 

Ter diabetes coloca a pessoa em constantes situações de ajustamento em relação ao seu passado. Terá de aceitar a cronicidade e eventuais complicações da doença, bem como a adaptação ao tratamento, e desenvolver estilos de vida saudáveis, manter autocuidados personalizados, gerir relações interpessoais e ainda aderir à terapêutica. Para as pessoas poderem controlar a diabetes, têm de acreditar que a mudança no comportamento adaptativo irá introduzir uma diferença clara em relação ao seu estado atual. A sua motivação terá de assentar na consciência do desfasamento, muito valorizado pelo próprio, entre o que consegue realizar e o que poderá vir a fazer.

 

Adotar novos comportamentos

As componentes fundamentais na motivação para mudar são: a autovalorização da mudança, o sentimento de autoeficácia, o planeamento da mudança e o respeito pela autonomia, ou seja, pela liberdade de escolher mudar. Esta corresponsabilidade na escolha dos objetivos a atingir torna-os mais pessoais, devendo ser sempre discutidos com um técnico de saúde. As mudanças devem assemelhar-se a rotinas. Alterar comportamentos automáticos anteriores por novos comportamentos, que necessitam de repetição para se transformarem em rotinas, implica muita persistência. É também neste ponto que surge a importância da motivação para a manutenção do autocontrolo da diabetes.

 

Motivação interna

A motivação pode ser interna, se derivar unicamente do nosso gosto, para nos sentirmos melhor, porque nos faz sentido, independentemente de qualquer recompensa objetiva, como um pagamento, ou subjetiva como o reconhecimento pessoal. Correr ao final do dia pode ser um ato de libertação, de gestão do stress, de sentimento de bem estar, de aumento de resiliência. Comer de modo saudável pode representar um hábito de vida gerador de um sentimento de equilíbrio e sintonia com o meio ambiente que nos envolve.

 

Motivação externa

A motivação externa implica ganho, alguma recompensa objetiva, pela realização de uma tarefa ou aquisição de uma perícia. Ou ainda a busca de reconhecimento exterior, como receber um elogio ou ser apontado como exemplo a seguir. São exemplos, adquirir a competência em administrar insulina ou evitar hipoglicemias durante uma maratona.

 

Estratégias de motivação

PREPARA-SE PARA A MUDANÇA

Se estiver com um sentimento de sobrecarga, “esmagado”, revoltado ou resignado em relação à diabetes pode ser precoce pensar em mudança. Pode partilhar estas emoções com alguém que oiça sem criticar.

Se sentir ambivalência, por exemplo, “eu quero mudar, mas não agora”, tente encontrar a sua motivação interna. Por exemplo, pode valer a pena mudar para ver os netos crescer. Detete aspetos positivos e menos positivos para a mudança, e quais as dificuldades a ultrapassar. Escreva estes pontos e discuta-os com o técnico de saúde.

 

SAIBA QUANDO PEDIR AJUDA

Procure um técnico de saúde quando tiver dúvidas que possam impedir a planificação da sua mudança ou quando não entende os resultados obtidos face ao esforço desenvolvido. Não será tanto pela informação que possa receber, pois não se relaciona diretamente com mudança, mas pelo feedback que terá. Pode permitir validar procedimentos, receber formação de perícias e esclarecer dúvidas. Lembre-se de que a sua corresponsabilidade na definição de metas aumenta a probabilidade de sucesso.

 

MUDE COMPORTAMENTOS

Comece por mudar os comportamentos que considera prioritários e acessíveis, e de modo parcelar. Estabeleça objetivos claros e metas realistas, mensuráveis, temporalmente definidos. Por exemplo, fazer exercício físico durante pelo menos 30 minutos às segundas, quartas e sextas às 19h. Ou comer, só uma vez por semana, um bolo, no sábado, ao pequeno almoço. Aumente gradualmente as mudanças. Não se autocritique por não conseguir. Lembre-se de que somente 7% das pessoas consegue aderir totalmente à terapêutica da diabetes. Se necessário reformule os objetivos e metas.

 

PROCURE ESTAR COM OUTRAS PESSOAS COM DIABETES

Partilhar as dificuldades em grupo diminui o sentimento de diferença e solidão. Permite estabelecer metas mais realistas e aumenta o compromisso e a probabilidade de sucesso por receio de desapontar os outros. Procure ter educação sobre diabetes no contexto de grupo.

 

APRENDA A GERIR A DIABETES E O TRABALHO

Tente manter os autocuidados, por exemplo, se necessário, leve comida que possa comer sem sair do local de trabalho. Se for adequado e se sentir confortável, explique a necessidade do tratamento e rigor no cumprimento de horários.

 

SAIBA VALORIZAR A SUA AUTOESTIMA

A diabetes é uma doença “que não se vê” e a sua responsabilidade no controlo é grande. Valorize o esforço e o que tem conseguido. Se necessário escreva metas que atingiu e festeje consigo próprio e com outros.

 

SAIBA GERIR A DIABETES E AS SUAS RELAÇÕES

Procure manter um equilíbrio entre a conveniência social e as exigências do tratamento. Por vezes, será indicado ser assertivo e recusar alimentos hipercalóricos. Noutras vezes, há exceções que fortalecem a sua rede de suporte social.

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