Impacto da diabetes na família

Lidar com a diabetes pode não ser fácil, mas será bem melhor se o processo for acompanhado pelos familiares.

 

Texto: José Luis Medina (endocrinologista)

Edição: Violante Assude

In revista Diabetes Viver em Equilíbrio, Ed. 90

 

A diabetes é uma doença familiar. Porquê? Porque quando se diagnostica a diabetes numa pessoa, toda a família fica envolvida com a pessoa com diabetes, principalmente os que são mais próximos.
Na fase inicial da doença pode haver maior fragilidade física e psíquica que pode ser devida a um período, mais ou menos longo, no qual a pessoa ficou sujeito á evolução da doença e às suas consequências como a perda de peso, a desidratação e o estado cetonémico com perda de apetite e emagrecimento. Este estado pode acontecer sobretudo na diabetes tipo 1, com maior relevância.

 

Ajudar a controlar o stress e a ansiedade

O diagnóstico pode ser acompanhado por preocupações e stress como é frequente. O Institute for Patient- and Family- Centered Care fez um estudo que envolveu 5000 pessoas adultas com diabetes e concluiu que o envolvimento da família, dos amigos e dos colegas de trabalho são muito importantes no bem-estar da pessoa com diabetes e na autogestão da doença (Baig, 2015).
Sabemos que o diagnóstico da diabetes pode ser motivo de stress e de ansiedade, na criança e no adolescente a diabetes pode surgir quase de forma súbita, mas no adulto evolui de forma lenta e traiçoeira, até se fazer o diagnóstico. O tratamento da diabetes deve ter a preocupação de diminuir, atenuar essa angústia. Educar, transmitir conhecimento à pessoa com diabetes sobre a doença pode dar segurança e permitir a tranquilidade que é necessária a um tratamento adequado. A equipa de saúde deve tranquilizar a pessoa com diabetes, focando aspetos gerais e particulares do tratamento (estilo de vida e medicamentos) e complicações e formas de as evitar. É aconselhável estender a educação aos familiares.

 

Aprender a controlar a diabetes

A diabetes é uma doença muito “exigente”. O seu tratamento exige alimentação saudável, atividade física regular, autovigilância, planeamento e organização de hábitos de vida saudável. A pessoa com diabetes deve integrar a equipa que o trata procurando ter uma autonomia responsável- atenção às variações glicémicas e às hipoglcemias (identificação e tratamento pronto e eficaz) e prevenção das complicações através de controlo apertado e adequado à idade e às co-morbilidades associadas sem esquecer que a pessoa deve ter a melhor qualidade de vida possível. Não se deve esquecer que a má qualidade de vida afeta a Diabetes (American Diabetes Association).

O impacto emocional pode ser significativo não só na pessoa com diabetes, mas também nos familiares, sobretudo os mais próximos.

Diversos fatores podem contribuir para que possam surgir sentimentos de ansiedade: o diagnóstico, o facto de ser uma doença crónica (a prazo longo), o aparecimento de potenciais complicações e as temidas hipoglicemias.

É fundamentar educar para esclarecer e ter disponibilidade de atenção em determinadas fases da doença. O pessoal da equipa multidisciplinar tem que estar sempre disponível para aumentar a segurança da pessoa diabética.

 

Estender a educação aos familiares

O apoio e o acompanhamento dado pela família podem ser concretizados de forma mais imperiosa nas crianças, nos adolescentes e nos mais idosos, contribuindo para o bem-estar físico e psicológico, fomentando o otimismo e a esperança no futuro da pessoa com diabetes. Este apoio familiar pode refletir-se por exemplo no acompanhamento às consultas e aos tratamentos, ou na preparação e administração do tratamento (insulina, medicamentos) para evitar omissões, trocas e confusões.

Lidar com a doença não será fácil, mas será bem melhor se o processo for acompanhado pelos familiares. Baig (2015) sublimava várias formas de apoio familiar: apoio social e emocional, acompanhamento em consultas, ajudas a decisões sobre o tratamento, apoios para iniciar e manter hábitos de vida saudáveis (não fumar, não abusar de bebidas alcoólicas, alimentação saudável, atividade física de acordo com a idade, por exemplo), ajuda para ultrapassar as rotinas familiares, ajudar nas dificuldades financeiras, nas injeções de insulina encorajando e evitando esquecimentos e acompanhar nas idas às urgências.
A família tem ainda outras responsabilidades para não “sabotar” os seus deveres: planear refeições inadequadas para um diabético, não tentar com alimentos não aconselháveis, não questionar a necessidade e utilidade das medicações e perturbar a adesão ao tratamento.

 

Apoiar e envolver-se reduz conflitos relacionados com a doença

É muito importante dar informação aos membros da família sobre a doença e as opções do tratamento, validar as suas experiências como cuidadores, ensinar a lidar as tarefas que fazem parte da gestão da doença e ensinar a planear o futuro. Os familiares, com esta integração nas atividades relacionadas com o tratamento, também podem colher benefícios como diminuição do stress psicológico, melhorar os seus comportamentos, aumentar a literacia para a saúde, prevenir a doença e combater a obesidade.

Num estudo, realizado por Anderson e col., em adolescentes dos 10 aos 15 anos foi demonstrado que o envolvimento dos pais pode ser reforçado através de uma intervenção integrada na rotina da equipa e contribui para uma redução dos conflitos familiares relacionados com a diabetes, através da observação e aconselhamento sem ser uma proteção declarada.

 

Apoio familiar facilita o controlo metabólico

O controlo metabólico é influenciado por vários fatores como sejam os fatores socioculturais (interação familiar e a pressão exercida pelos familiares), os fatores psicológicos (depressão, comportamentos prejudiciais, stress, perturbações nutricionais, medo de complicações e discriminação social) e também outros fatores como os mitos e os medos da insulina, as dosagens da insulina, outros injetáveis não – insulina, os antidiabéticos orais a evolução física e hormonal do jovem e seu metabolismo. A importância dos familiares como cuidadores vai contribuir para a associação que se verifica com o melhor controlo metabólico e a prevenção das complicações. A intervenção familiar pode ser feita, na criança e no adolescente, através do apoio e reforço da segurança. É importante a vigilância sobre desvios do comportamento que prejudiquem o controlo da diabetes e a prevenção das complicações. No adulto, a intervenção da família pode incidir no apoio e no reforço da segurança, no aconselhamento em casos particulares e na partilha de conhecimento sobre a doença. As relações familiares podem influenciar a gestão da diabetes (conflitos de opinião sobre medidas a tomar no campo nutricional, por exemplo).

A não resolução dos problemas pode ser um indicador de risco para as complicações. É aconselhável que os membros da equipa estejam atentos a estes problemas para atuar a este nível. Foram identificados alguns fatores de risco familiar em estudo realizado por Fischer (2006) – baixa satisfação do casal, hostilidade e conflitos, excesso de críticas, má capacidade para resolver problemas, baixas coerência e coesão familiar, má organização familiar, dúvidas sobre a diabetes e sobre a eficácia das recomendações da equipa.

O conhecimento dos familiares sobre a diabetes é muito importante com influência na adesão ao tratamento, no cumprimento das recomendações alimentares, na desmistificação da insulinoterapia, na identificação das complicações e no apoio à vigilância sobretudo em crianças, adolescentes e idosos.

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