Hipoglicemias e exercício físico

Texto: Francisco do Rosário (Endocrinologista APDP)

 

In revista Diabetes Viver em Equilíbrio, Ed. 90

 

Todos conhecemos obstáculos para a prática de exercício físico. Desde a pouca disponibilidade de tempo, à ausência de locais ou materiais para exercitar até à mais banal falta de motivação. Ora, no universo da diabetes, onde o exercício adquire uma importância basilar em qualquer esquema terapêutico equilibrado, sabemos que existe um obstáculo adicional – As hipoglicemias (“as hipos”).

As hipoglicemias funcionam quantas vezes como elemento dissuasor da atividade física, tomando o que deveria ser saudável num problema, quantas vezes num verdadeiro “quebra-cabeças”!

 

Antes de mais, porque aparecem hipoglicemias?

O exercício representa trabalho muscular. Como tal, consome as fontes de energia do organismo que estão à sua disposição. Em primeiro lugar, e preferencialmente, a que circula no sangue – a glicose (medida pelos níveis de glicemia)- e as reservas de energia do músculo – o glicogénio (que é degradado para utilização rápida como glicose). O consumo destas fontes de energia conduz logicamente à sua redução e, por fim, valores de glicemia baixos. As hipoglicemias resultantes têm formas de apresentação que resultam deste conjunto de mecanismos.

 

Como aparecem as hipoglicemias?

No imediato – Ao fazer exercício em determinadas circunstâncias, pode ocorrer uma descida rápida de glicose circulante. Acontece nomeadamente quando o exercício não se acompanha de uma alimentação com hidratos de carbono que possam compensar o gasto ou se não existiu o cuidado de reduzir a terapêutica com insulina ou libertadora de insulina.

6 a 8 horas depois de terminado o exercício – Após o exercício, as reservas do glicogénio muscular são reduzidas. Ao fim de algumas horas, o organismo tenta repô-las, sendo que a fonte para a reposição é a glicose circulante. Este processo pode desencadear hipoglicemias, mais frequente 6 a 8 horas após a atividade física. Esta é a razão de ser sugerida a ingestão de hidratos de carbono de absorção lentas algumas horas após terminar de se exercitar.

Até 48-72 horas após o exercício – Sabemos que um dos efeitos benéficos do exercício é a redução da resistência à insulina. Dito de outra forma, a terapêutica torna-se mais eficaz, o que significa que mantendo as mesmas doses o efeito é maior. Este efeito, que pode produzir hipoglicemias ao longo do tempo, pode perdurar até 72 horas depois de terminar a atividade física.

 

O que pode tornar mais provável a hipoglicemia em quem faz exercício?

Fazer exercício sem comer convenientemente antes de o fazer.

É o que acontece em quem sai de casa de manhã para correr após fazer a medicação, mas sem comer ou comendo em pequena quantidade.

Fazer exercício sem comer convenientemente durante o exercício.

É aconselhado ingerir líquidos e hidratos de carbono de absorção rápida de forma a evitar a desidratação e a descida rápida dos valores de glicemia.

Não reforçar a ingestão calórica após o exercício

É aconselhado ingerir alimentos horas após a atividade, sendo preferível consumir hidratos de carbono de absorção lenta. É uma forma de ir suplementando as necessidade de reposição de reservas energéticas.

Não ajustar a terapêutica hipoglicemiante em função do exercício

Deve ser combinado com os profissionais que o assistem. Se, por exemplo, não reduzir a insulina de ação rápida antes e imediatamente após o exercício, o efeito desta terapêutica será excessivo.

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