Não nos podemos deixar “infetar” na resposta à situação: por um plano global de resposta às doenças crónicas em ambiente Covid-19

A nossa vida e, em particular, a vida das pessoas com doença crónica encontra-se neste momento perante diferentes impactos: o causado pela mortalidade e morbilidade provocada pela covid-19, o impacto da restrição de recursos nas situações urgentes não covid-19, o impacto da interrupção dos cuidados nas doenças crónicas, e o trauma psicológico com o aumento das doenças mentais e o esgotamento psicológico, para além do impacto do desemprego e da pobreza galopantes.

 

Artigo de opinião publicado no Expresso online, dia 29 de maio de 2020

 

O combate à pandemia tem de ir muito além das vacinas e atos legislativos. Não nos podemos deixar infetar na resposta à situação. É preciso uma estratégia global para as principais doenças crónicas nas várias frentes, com orientações claras e reforço dos serviços de saúde, com a necessária autonomia e agilidade na sua gestão.

As doenças crónicas sempre foram o mundo escondido agora tornado mais grave em ambiente de pandemia. Por isso a resposta nacional à pandemia tem de ter em consideração as necessidades reais de saúde das pessoas que vivem com essas doenças, responsáveis por mais de 85% da mortalidade nos países desenvolvidos.

São quatro as doenças crónicas que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece como prioritárias, essencialmente pela sua dimensão e impacto em toda a sociedade. A diabetes, a doença cardiovascular, o cancro e a doença respiratória. São elas que necessitam de uma abordagem a implementar no imediato, pois é de esperar um aumento de situações graves nos próximos tempos pela falta de cuidados dos últimos meses. E porquê?

Destacamos 4 razões assinaladas pela Aliança Internacional das Doenças Não Transmissíveis (NCD Alliance), cada uma por si mais do que suficiente:

  1. As pessoas com doença crónica são um grupo de alto risco, para complicações e morte, se forem atingidas pela covid-19.
  2. As evidências indicam que a covid-19 pode causar impactos na saúde a longo prazo, nomeadamente no desenvolvimento e agravamento de doenças crónicas.
  3. A covid-19 veio destabilizar todos os níveis de cuidados nos serviços de saúde, no apoio continuado que as doenças crónicas necessitam e no tratamento das suas agudizações.
  4. As políticas como o confinamento, o distanciamento social, o medo e as restrições de viagem, reduziram o acesso aos rastreios, tratamentos e acompanhamento quer de rotina, quer de carácter urgente.

No caso da diabetes, em Portugal serão entre 10 a 20 mil pessoas que poderão não ter tido um diagnóstico e uma intervenção precoce, que é aquela que mais permite evitar complicações. Tivemos o adiamento de milhares de consultas e tratamentos de oftalmologia, de consultas de pé e de cirurgia vascular, de nefrologia, cardiologia, oncologia… As consequências a médio prazo podem ser um surto de amputações, problemas de visão que podem levar à cegueira, enfartes, AVCs e mortes motivadas por doenças crónicas. Por isso, a prevenção, o rastreio e a intervenção precoce, os tratamentos e o acompanhamento adequado, devem ser a prioridade de uma resposta nacional durante e pós covid-19. O vírus passará, outros virão, mas quanto mais fortes estivermos, melhor resistiremos.

Já é mais do que tempo para reconhecer que os desafios imprevistos na saúde e os seus impactos têm de mobilizar recursos que requerem a colaboração da sociedade civil, numa responsabilidade partilhada e numa resposta coordenada. O plano de ação global para as doenças crónicas, segundo orientações da própria OMS, deve ser intersectorial, comprometendo todos os parceiros relevantes. A Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, e as outras associações de doentes, cá estarão para colaborar quer na sua criação, quer na sua implementação.

São 3 as prioridades estratégicas da OMS:

  1. Conter o surto da pandemia da covid-19 e diminuir a morbilidade e a mortalidade a ela associada.
  2. Combater a deterioração dos direitos e das condições das pessoas e reforçar a coesão social e os meios de subsistência.
  3. Proteger e assistir as populações mais vulneráveis, onde se incluem as pessoas com doença crónica.

Registe-se o que se lê no editorial da última edição da revista científica “The Lancet“: “com a covid-19, não combatemos apenas uma doença aguda, mas também um cenário crescente de doenças crónicas, que aumentaram desnecessariamente o número de mortes. Após a pandemia, com a possibilidade de uma crise financeira sem precedentes, talvez seja ingénuo pensar que recursos adicionais estarão disponíveis para reduzir a carga das doenças crónicas. Mas é exatamente isso que é preciso que aconteça.”

 

José Manuel Boavida

(Presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal)

 

João Valente Nabais

(Vice-Presidente da Federação Internacional da Diabetes)

 

João Filipe Raposo

(Presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia, Consultor externo da OMS-Europa)

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